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Liderança ou protagonismo, eis a questão…

Queremos mudar mas não sabemos como…

As coisas estão ficando cada vez mais complicadas, na medida em que mudança é a ordem do dia. Tudo está em processo e nós não sabemos como lidar com tantas possibilidades.

Quem nasceu nas décadas de 30/40, já está no fim da curva de aprendizagem. Aprende-se o necessário para conviver com os comandos dos tablets e dos automatismos caseiros, como ar-condicionado, TV por assinatura e, para os mais atrevidos, um smartphone para conversar com os filhos e netos.

Os nascidos logo depois, nas décadas de 60/70, ainda estão na ativa e fazem o possível para se manterem atualizados e não sucumbirem na tecnológica realidade virtual que nos assola.

Os que vieram depois, 80/90, estes estão na crista da onda, surfando cada novidade e curtindo ao máximo a tecnologia vigente. Agora, os millennials e centennials, respectivamente gerações Y e Z, estes já nasceram com um celular na mão e smartphone já é coisa do passado, pois o futuro promete muito mais.

Podemos fazer qualquer coisa,
só não podemos fazer todas as coisas.

Neste mundo de possibilidades, as pessoas ficam obrigadas a fazerem escolhas, mas isto pode ser incômodo. Escolher entre duas ou mais coisas bacanas não é necessariamente fácil, para alguém acostumado a ter acesso a muitas coisas. A falta de limites gera uma enorme ansiedade na medida em que as pessoas não se contentam mais com pouco, pois estão hiper estimuladas a quererem mais. Assim tem sido.

Há jovens que não conseguem imaginar o mundo sem conexão de internet ou um smartphone. Se faltar luz, então, não sabem que podem acender uma vela. Imaginem tomar um banho frio ou até mesmo viver sem geladeira. Isto já é pré-histórico para os nascidos na virada do século. Fato é que a vida nos obriga a lidar com coisas básicas e elementares, se é que queremos mudar alguma coisa. Conviver com o que temos de melhor, tecnologicamente falando, é um luxo, sabendo que na Copa do Mundo de ’70, TV colorida ainda não estava disponível para os brasileiros. Em resumo, avançamos muito rápido em alguns aspectos relativos a processos, mas no que tange às relações pessoais, ainda nos falta muito.

Na medida em que as relações se fortalecem,
os negócios se perpetuam.

Uma das inteligências mais necessitadas em momentos de transição, é justamente aquela que menos é prezada, a emocional. Em um estudo brilhante, no seu livro Primal Leadership, Daniel Goleman discorre sobre três fatores e tira algumas conclusões, depois de uma extensiva pesquisa.

As pessoas que são boas em processos (aqui chamado de ISTO), impactam seus negócios em até 50% mais, em comparação às demais. Por outro lado, as pessoas que se conhecem e se cuidam, de forma consciente e equilibrada (aqui chamadas de EU), conseguem impactar seus negócios em até 78% mais, em comparação às demais. Por último, as pessoas que sabem se relacionar com outras, são boas para conviver em grupo e sabem cuidar dos demais (aqui chamadas de NÓS), por sua vez, podem impactar seus negócios em até 110% mais do que as que não são.

Como fui educado a acreditar que números não mentem, fiquei extremamente curioso com esta estatística, quando me dei conta que faltava uma última informação: as pessoas que são boas no EU e no NÓS, de acordo com o autor, podem impactar seus negócios em até 390%. Fato é que, mesmo tendo sido publicada, esta informação segue tendo pouco crédito, porque somos levados a acreditar que a tecnologia associada aos processos será o grande fator de mudança e transformação que a humanidade precisa para poder viver num mundo melhor. Ou seja, continuamos sendo levados a crer que o processo é mais importante do que as relações, mesmo com as estatísticas provando o contrário.

Transformação do que para quê?…

Num mundo em que tudo muda, a grande indagação é “para quê”? Qual o propósito de tantas mudanças quando, de fato, ainda não aprendemos a amar a nós mesmos para podermos amar aos demais? Se formos atrás da história da humanidade e pegarmos os últimos 2.000 anos, e aceitarmos, historicamente, que um tipo cabeludo, batizado de Jesus, professou que amar era o caminho para a mudança, e que passados estes tantos séculos nós ainda não aprendemos a lição, o que mesmo nos falta para, de fato, transformar nosso meio e avançarmos de forma dita, civilizada, para um estado de consciência mais relacional e menos processual? O que mesmo estamos buscando para justificar a implacável ganância que nos assola em termos coletivos?

Quando eu mudo o mundo muda.

Independente de quem tenha dito isto, é certo que ficou gravado no nosso inconsciente. Ainda assim, a maior de todas as mudanças é aquela que diz respeito a mim. Quando toca eu mudar, as leais forças da oposição se manifestam e há uma enorme resistência em soltar aquilo que é conhecido, ainda que não funcione, para acessar o novo, justo pelo fato de ser desconhecido. Daí emergem os conchavos e acordos que uns poucos detentores de muito poder, fazem, para manter seu status quo e poder, em detrimento da maioria, que clama por mudança, mas espera por um líder, um messias, um guru ou até mesmos um acidente de percurso que justifique a mudança. É aqui que vem a grande pergunta: para operar mudanças, nós precisamos de líderes ou de protagonismo?

Liderar é seguir seu próprio caminho.

Se eu soubesse das inúmeras dificuldades que encontraria ao longo do caminho, certamente não teria começado. No entanto, se eu confiar que tenho o necessário para seguir e que não há nada a temer, dou mais um passo e sigo, trilhando o que nunca antes trilhei, liderando de forma única, e fazendo valer a máxima que diz “clareza se tem ao longo do caminho, nunca antes de começar”.

Assim, o importante é o próximo passo, para que a coragem, a vulnerabilidade e o comprometimento emerjam e consolidem a jornada do herói, autenticando a liderança que brota espontânea, de dentro para fora. Assumir as rédeas da vida, de forma responsável, pode ser a grande chave para que o meu melhor se manifeste e meu protagonismo se converta na ferramenta de mudança mais poderosa que há.

Quero acreditar que liderança não é um papel, mas uma experiência, e protagonismo seja o caminho para uma vida mais autêntica e coerente. Quem sabe, aí sim, veremos um mundo mais relacional, afetuoso e terno, ao invés de uma virtualidade processual insustentável, para uma maioria angustiada, buscando alguma coisa “lá fora”, sem mesmo conseguir estar “aqui dentro”. Eu voto pelas relações. Sim, as pessoas vêm primeiro, os processos vêm depois, ou você ainda não acredita em números?

Leia também: PENSANDO NA VIDA – Para onde você olha é para onde você vai…

Marcello Lacroix

Amante, palestrante, inquieto, provocador, poeta, consultor, reflexivo, mentor de uns e coach de alguns. Observador, questionador, mergulha profundo. Gaúcho de berço, viaja o mundo. Idealizou a eNGENHARIA dE gENTE, modelo de observação apreciativa do propósito, da forma e do conteúdo.

Contato: marcello@engenhariadegente.com Facebook: marcellolacroix

Marcello Lacroix
Marcello Lacroix

Amante, palestrante, inquieto, provocador, poeta, consultor, reflexivo, mentor de uns e coach de alguns. Observador, questionador, mergulha profundo. Gaúcho de berço, viaja o mundo. Idealizou a eNGENHARIA dE gENTE, modelo de observação apreciativa do propósito, da forma e do conteúdo.

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