Quem sou eu? Características herdadas e aprendidas: determinismo ou oportunidade?

Liderança ou protagonismo, eis a questão…
2 de agosto de 2017
10 lições sobre liderança
4 de agosto de 2017
Mostrar todos

Quem sou eu? Características herdadas e aprendidas: determinismo ou oportunidade?

…tenho pensado muito em minha própria identidade, nas minhas características, minhas qualidades e defeitos e inexoravelmente me deparo com minhas heranças.

Agora começa um período do ano cheio de comemorações na minha família: meu pai fez aniversário em julho, minha mãe faz agora no início de agosto, minha irmã fará no final de agosto e eu farei em outubro; só meu irmão é aniversariante do início do ano. Talvez por causa desta época eu tenho pensado muito em minha própria identidade, nas minhas características, minhas qualidades e defeitos e inexoravelmente me deparo com minhas heranças. Cada vez mais eu identifico os traços que me formaram e que recebi dos meus pais. O interessante é olhar para isto agora, aos 46 anos de idade, depois de muita pesquisa nas leis biográficas, de muita observação e aprendizado com meus clientes e pacientes.

Eu sempre percebi muitas dessas características: sempre soube que a forma de raciocínio, a curiosidade pela pesquisa, a ânsia por uma justiça social e uma tendência a ponderar antes de julgar eu recebi do meu pai. Por outro lado, um certo talento para as artes plásticas com um senso estético apurado, bem como um interesse pela natureza, um grande amor sem medo aos animais e um encantamento pelas plantas eu herdei da minha mãe.

Quanto mais olho para mim mesma, mais eu me
deparo com uma combinação nova e inusitada de
características que eu reconheço nos meus pais.

De maneira alguma quero com isto dizer que sou só uma combinação do que veio de cada um, muito pelo contrário! O que tem me encantado agora ao fazer estas ponderações é perceber a dádiva que recebi, que cada um de nós recebe por ter uma família, pais ou cuidadores, com quem aprender as referências que vão permear e nortear nossas escolhas, para o bem ou para o mal, mas que se fazemos uma observação cuidadosa, são referências e não caracteres fixos, imutáveis.

Claro que há muitos tipos de famílias, cada vez mais, aliás, e também há ausência de famílias, há órfãos, famílias desestruturadas, e em todos os casos haverá referências positivas e negativas, portanto, a meu ver, é uma dádiva termos onde buscar referências.

Porque somos assim?

A questão me parece a falta de consciência, ou seja, a tendência que vemos muito frequentemente nas pessoas de se definirem por estas referências ao invés de conscientemente usá-las. É muito comum escutarmos: “eu sou assim e pronto!” Ou algo deste tipo, como que dizendo que não tem como mudar. No entanto, quando paramos para pensar: porque somos assim? Será que vamos encontrar estas características em nós somente? Será que elas tiveram início comigo mesma quando eu nasci ou é possível que, de alguma forma, eu as tenha aprendido ou adquirido por imitação ou estratégia de sobrevivência por tentativa e erro?

Se analisarmos as características físicas, que são as mais fixas, já percebemos que vieram de nossas famílias. Com um ou outro arranjo, são combinações das heranças de nossos pais. Até pouco tempo atrás, nada podíamos fazer se não gostássemos de nossos narizes, por exemplo, hoje há a possibilidade de mudar até o gênero. Ou seja, a identificação com a minha herança tem sido cada vez mais livre e até o que já foi realmente imutável, hoje é possível mudar ou pode vir a ser muito em breve, como a mudança genética para prevenir doenças ou para garantir determinados caracteres. Deixemos de lado as polêmica destes assuntos, não nos cabe por hora, talvez em outro momento.

Apenas quis apontar a importância da hereditariedade, mas, além disso, a importância de lançarmos luz nas nossas qualidades e defeitos para podermos identificar as origens de nossas características, de nossa forma de pensar, sentir e agir no mundo, para, com esta consciência podermos, livremente nos identificarmos ou transformarmos o que recebemos ou aprendemos com nossas origens, fazendo uso consciente de cada um em cada situação.

…ajudando a formar minhas
próprias características.

Portanto, hoje quero fazer um reconhecimento e um agradecimento à minha família, especialmente aos meus pais que, com suas qualidades e defeitos, me mostraram tantas possibilidades de pensar, sentir e agir, me ajudando a formar minhas próprias características.

Obrigada mãe, por me abrir os olhos para a beleza do mundo, mas também por me trazer o desafio de ultrapassar o senso de segurança que para você é tão importante, mas que poderia me paralisar e acomodar: graças a isto eu aprendi a arriscar e vencer meus medos.

Obrigada pai por me incentivar a ir sempre além e aprender sempre mais, com você eu tenho a certeza de que nada é impossível e isto me traz o grande desafio da constante busca da humildade, que me conecta com os outros buscando ver sempre o melhor em cada pessoa.

Há uma infindável lista que eu poderia colocar aqui e agradecer e procurar perceber os aprendizados e desafios que tive com cada característica dos meus pais. Não é necessário, o importante para mim é poder reconhecer e agradecer, não porque graças a eles eu sou assim, mas porque graças a eles eu posso ser assim e muito mais, pois posso assimilar, descartar, transformar ou ampliar tudo o que recebi deles, bem como buscar desenvolver o que eu não recebi, mas para isso é preciso que eu seja capaz de reconhecer e isto começa com uma vontade de me conhecer, pois, me conhecendo, reconheço meus pais, só que agora a partir de mim e isto significa um milhão de novas possibilidades!

Quem sou eu? Eu sou meus pais e muito mais, só para começar.

E você, quem é você?

Clique aqui para ler os outros artigos de Alexandra Mettrau

Alexandra Mettrau Guedes
Aconselhadora Biográfica, Psicóloga, Artista Plástica, Formadora de Adultos e Consultora em desenvolvimento humano fundamentada pela Pedagogia Social Antroposófica.

“Precisamos evoluir em direção a uma vida com significado e a fazer da nossa própria biografia uma obra de arte que seja a expressão desta autoconsciência responsável”

Saiba mais sobre Alexandra

Alexandra Mettrau Guedes
Alexandra Mettrau Guedes
Aconselhadora Biográfica, Psicóloga, Artista Plástica, Formadora de Adultos e Consultora em desenvolvimento humano fundamentada pela Pedagogia Social Antroposófica. “Precisamos evoluir em direção a uma vida com significado e a fazer da nossa própria biografia uma obra de arte que seja a expressão desta autoconsciência responsável” Saiba mais sobre Alexandra
  • Andréia Inacio Barbosa

    A gratidão em forma de reconhecimento a herança genética, exemplos, dons …. a semelhança física estampada no espelho…. reconhecer que somos pai e mãe e ainda mais que isso, uma individualidade!
    E no processo de busca da própria identidade não deixar de reverenciar a herança, mas, através da auto consciência e autoeducação, descobrir que somos um, que somos uma individualidade dentro do todo.
    Não negar nossas raízes, ser grato, reconhecer nossa herança genética é um bom começo para nos descobrimos como indivíduos.
    Andreia Inacio Barbosa
    Aconselhadora Biográfica e Terapeuta Floral.

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Sim Andréia! Uma infindável autodescoberta, pois a cada nova autopercepção nos tornamos algo mais, temos novas possibilidades! Que maravilha podermos ser este infinito individual que possibilita esta riqueza para o social, não é?
      Grande abraço!

  • Marisú Ramírez

    Reconocer Lo que Soy desde un corazón agradecido a mis padres me parece muy sabio. Pero mejor aún, “hacer con aquello que tuve y que no la posibilidad de algo nuevo, me parece maravilloso.En el acto creativo de Lo nuevo, estará mi Impronta. Graciasss Alexandra por inspirarme a seguir buscando lo propio, más consciente!! Desde Argentina un abrazoooo acorazonado!!

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Hola Marisu! É o que você tem feito, certo? Poder inspirar e ajudar meus clientes e alunos e ver como cada um vai, pouco a pouco, descobrindo e desenvolvendo os próprios potenciais, bem como buscando ferramentas internas e externas para se autodesenvolver é o que me inspira a crescer e me autoconhecer e desenvolver, para que eu possa colaborar cada vez mais.
      Eu que agradeço a oportunidade de estar me reinventando sempre!
      Abraço grande! Bom módulo da formação biográfica aí!

      • Marisú Ramírez

        Gracias Alex…es humilde “reinventarse” y sobretodo por compartir tu experiencia “humana” de estos descubrimientos. Te abrazo! Te extrañaremos en el módulo!!

        • Alexandra Mettrau Guedes

          Também sinto saudades! Estarei aí em novembro! 😘

  • Gabriel Paula Fonseca

    A hereditariedade é uma das coisas mais significativas que carregamos na nossa mochila biográfica 🙂

    Reflexão mais que necessária!

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Oi Gabriel, é mesmo! Obrigada!

  • Claudia Cunha

    É isso mesmo…
    Somos uma mistura: um pouquinho dos nossos pais, um pouquinho de cada um que passou na nossa vida e deixou uma impressão, e tudo isso junto com o que vamos refletindo e querendo pra nossa vida! Assim vamos construindo o que queremos ser “quando crescer”! 🙂
    Seus pais devem estar muito orgulhosos da filha. E os amigos também, disso tenho certeza!

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Eu também tenho muito orgulho dos meus pais e dos meus amigos! Em especial de uma amiga que teve muita coragem para mudar de rumo e arriscar uma nova busca em direção a si própria, né? Nada como parar para entrar em contato com o que a sua própria individualidade quer desenvolver, né? E aí, faz muito mais sentido o uso do que herdamos, com consciência e foco. Sabe bem do que estou falando, né? Beijo

  • Tereza Menezes

    Eu podia ter escrito esse texto; como teve eco e esbarrou em leituras recentes diante da minha bagagem. Aos 57 anos tenho percebido, com total gentileza e agradecimento as semelhanças que reverberam em mim. Obrigada pela leitura, foi quase como me ouvir.
    Texto limpo, claro, belo e você, querida Alexandra. Beijo

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Oi Tereza! Que bom ouvir que te tocou assim, como se você estivesse se ouvindo. Nestes dias de incertezas, tarefas para ontem, turbilhão de demandas externas, precisamos muito desta auto-escuta!
      Beijo grande!

  • Juan Arboleda

    Porque soy así y punto! Así es cuando no quiero cambiar ni reconocerme.
    Cómo reconocerme a mí mismo y trabajar en mejorar mis sentimientos, pensamientos, actos ?
    Y además saibendo la influencia de mis padres, abuelos, familiares, personas cercanas ?
    Conocerme y reconocerme ya es una tarea difícil en el afán del día a día, donde me olvido de mi mismo.

    Requiere para mí un esfuerzo individual y compromiso de trabajo interior.

    Gracias Alexandra por estas reflexiones! Un abrazo desde Medellin.

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Hola Juan!
      Sim, requer um esforço individual e um enorme compromisso consigo próprio de trabalho interior! E é só assim que poderemos sair deste turbilhão que nos tira de nós mesmos e nos faz esquecer quem somos e quem queremos ser.
      Obrigada por suas palavras. Abraço de Brasil!

  • João Falcão-Machado

    Bonito texto, que outro eu não podia esperar de vc, em particular o reconhecimento a sua família, a seus pais. Agora, olhando as “heranças”…
    Nos estudos de comportamento animal e a questão da transmissão de conhecimento entre gerações, vale a pena referir o exemplo de determinadas aves marinhas que martelam com uma pedra as conchas dos bivalves com que se alimentam. É um golpe preciso e eficiente. Numa experiência, pegando alguns exemplares destas aves, gerados numa incubadora e sem contacto algum com seus progenitores e/ou outras aves da mesma espécie, constatou-se que também elas procuravam a pedra para partir as conchas, mas eram golpes desajeitados e pouco eficientes.
    Por outro lado, a avaliação clássica da psiquiatria, classificava os indivíduos, segundo as patologias mentais, como que os colocando em pequenas gavetas de um contador. Freud veio revolucionar esse método ao afirmar que cada ser humano comporta em si todas as patologias, apenas que em determinadas situações é esta ou aquela que se ressalta.
    Com tudo isto, e mesmo reportando apenas ao determinismo biológico, somos sempre uma simbiose entre o genético e o cultural. Temos características inatas e características aprendidas e não é possível isolar umas das outras. O ser humano tem de ser observado no seu todo e não apenas em partes separadas.

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Oi João, obrigada por seu comentário enriquecedor. Sim, temos que ser observados como um todo, cada um de nós. Cada pessoa é um complexo das características que recebeu e, assim, tem a possibilidade única e individual de fazer escolhas para construir sua própria individualidade. Para isso quanto mais olharmos para nós próprios buscando o autoconhecimento, mais poderemos reconhecer nossas heranças genéticas e culturais e escolher o que fazer com elas, ao invés de nos entregarmos a elas como determinantes.
      Abraço!

  • Mítzi Oliveira

    Querida Alexandra, começando a ler seus escritos tive a impressão que você estava conversando comigo, contando de sua vida, rsrsrs. Nos últimos tempos tenho pensado também, justamente sobre as heranças familiares, os talentos, as tendências, o estilo da família e no quanto eu tenho deles, o que sou grata de ter recebido, no que transformei, por ex. meu avô paterno, tio e pai adoravam plantas, flores. Esse amor pela natureza em mim se potencializou, meu pai gostava de passarinhos…na gaiola, eu luto para libertá-los. Tenho percebido que as tendências (que desejo transformar ou até me livrar) da parte materna, são mais arraigadas, esse é o meu exercício diário de atenção, para não agir no fluxo da tendência familiar e sim perceber quem eu sou. Grande abraço!

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Mitzi, que maravilha! É muito bom termos essa consciência, né? O quanto sou grata por este nosso trabalho que promove uma percepção mais apurada e imparcial para nossa biografia e nos permite reconhecer e transformar o que nos é dado, possibilitando uma construção plena e consciente de nossa própria personalidade!
      Obrigada por seu comentário! Abraço

  • Alessandra Carvalho

    Que belo presente esta reflexão, querida Alexandra!

    • Alexandra Mettrau Guedes

      Oi Alessandra, obrigada! Esta reflexão foi um presente para mim também! Reconhecer o que recebi e como tudo isto me ajudou e me desafiou para o desenvolvimento da minha própria identidade tem sido um grande aprendizado sobre mim mesma e uma maravilhosa oportunidade de enxergar minha família de forma realista, com qualidades e defeitos e, assim, possibilitando o crescimento consciente das nossas relações.
      Beijo grande!