Um minuto, por favor ou por presente

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Um minuto, por favor ou por presente

minuto, hora, relogio

Era um dia comum. Algumas pessoas apenas andavam pelo espaço. Outras tantas entravam e saiam das inúmeras salas sugeridas com uma rapidez imensa. Volta e meia, uma pessoa entrava, logo dava uma gargalhada e saía. Outros abaixavam a cabeça balançando-a como um não.  Poucas, raras eram aquelas que entravam ali e vivenciavam a proposta feita por mais de um minuto. Um minuto era pedir demais. Em menos de um minuto, com frequência, a pergunta era verbalizada com uma mistura de estranhamento e indignação: “Desde quando isso é arte?”.

Longe de mim responder a tal pergunta. Muitos filósofos, críticos de artes, artistas já se debruçaram sobre o tema deixando um legado para os que querem estudar o assunto. Na situação descrita, tenho interesse em refletir sobre a postura que assumimos diante de algo ou alguém, o espaço interno que abrimos (ou não) para dialogar com o mundo e com o que nele vive.

Nós estávamos num museu de arte contemporânea. Não vem ao caso especificar em qual exatamente, mas o fato é que ele pertence ao rol dos de excelência. Talvez por já ter ido outras vezes, desta vez me atentei mais às pessoas dos que às obras em si. Era um espetáculo à parte observar a reação, a postura das pessoas diante de todas aquelas obras de arte contemporânea.

O ser humano como obra de arte

Das outras vezes em que fui, fiquei tão atenta às obras que, sinceramente, nem percebi as pessoas que ali estavam. Desta vez, como já as conhecia – estava indo para levar um amigo que nunca tinha estado lá – o ser humano foi a obra que mais contemplei. A reação, a maneira como cada um se conecta com a situação apresentada, a velocidade com que se relaciona com a proposta, a necessidade do registro virtual, os comentários feitos em alto e bom tom. Aquilo tudo me trouxe uma reflexão acerca de nossa postura diante da vida.

Num tempo onde a individualidade está sendo cada vez mais acentuada – e que ótimo que assim o seja, contraditoriamente tornou-se um desafio relacionar-se por mais de um minuto com algo que seja estranho, que pareça, de imediato, esquisito. Mas como é possível valorizar as individualidades sem abrir o espaço interno necessário para algo que esteja fora das próprias referências? Se não é possível estar, contemplar, relacionar, dialogar com algo – e creio que neste sentido o alguém também caiba – que esteja fora da própria referência, também fica inviável a valorização efetiva das individualidades. E, assim sendo, caímos inevitavelmente numa valorização egóica, onde apenas o próprio “umbigo” merece ser escutado, merece respeito. Qual a origem de tantos conflitos e intolerâncias que estamos vivendo? Na velocidade em que nos encontramos, um minuto parece ser tempo demais para estar em contato com o que, à primeira vista, parece-nos estranho. O que cabe dentro de um minuto? Para ir além da superfície, de quanto tempo precisamos?

Deixe seu parecer: (  ) gostei (  ) não gostei

Tive a sensação de que cada pessoa que ali estava podia ter apenas dois pareceres: “gostei” e “não gostei”. Em se tratando de criação, será que elas foram feitas para habitarem o âmbito do gosto pessoal? Quantos pareceres existem entre o “eu gosto” e o“eu não gosto”? O que é possível encontrar se saímos desse restrito campo da simpatia/antipatia?

Contemplar a vida e as construções do mundo parece ser o grande desafio da atualidade. Contemplar, abrir mão da superfície e dar um passo a mais, ou quantos passos cada um for capaz. Caminhar em direção ao que está posto. Ir ao encontro, talvez, de si mesmo. Ter a primeira impressão, fechar o olho e abri-lo outra vez, ou tantas quantas vezes forem necessárias para ver algo mais do que a primeira vista. Todas essas reflexões me parecem um espelhamento vinculado às relações, um reflexo da capacidade que cada ser desenvolve para estar consigo mesmo e/ou estar com o outro, a abertura para dialogar com o diferente, o estranho, o esquisito, o feio.

Estar ali. Apenas estar. Aquele um minuto talvez seja o tempo que se dá, antes de tudo, a si mesmo. Permitir-se estar. Por um tempo. Permitir-se estar presente, no agora. Tempo presente. Permitir-se o tempo como presente. Um minuto, por favor. Não. Por favor, não. Um minuto por presente. Ou um pouco mais…. Depende da capacidade que cada um tem para carregar o seu próprio presente.

O que tudo isso te parece? Por favor, deixe-me saber, mas por presente (para ti e para mim) vá além do teu gosto pessoal.


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Lúcia Vernet

Primeira Dramaterapeuta Antroposófica brasileira, atriz, arteducadora e pedagoga antroposófica. Trabalha com formação de adultos através de processos vinculados a educação, ao teatro e as histórias de vida. Já realizou trabalhos em várias regiões do país, bem como Argentina, Chile, Peru, Bósnia & Hezergovínia, Canadá e China.

“Fatos reais ampliados por um olhar reflexivo serão apresentados para que cada leitor possa fazer um processo de reflexão interna a partir da experiência do outro, proporcionando uma comunhão entre a vivência alheia e a sua própria história de vida.”

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Lúcia Vernet
Lúcia Vernet
Primeira Dramaterapeuta Antroposófica brasileira, atriz, arteducadora e pedagoga antroposófica. Trabalha com formação de adultos através de processos vinculados a educação, ao teatro e as histórias de vida. Já realizou trabalhos em várias regiões do país, bem como Argentina, Chile, Peru, Bósnia & Hezergovínia, Canadá e China. “Fatos reais ampliados por um olhar reflexivo serão apresentados para que cada leitor possa fazer um processo de reflexão interna a partir da experiência do outro, proporcionando uma comunhão entre a vivência alheia e a sua própria história de vida.” Saiba mais sobre Lúcia
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