Ancestralidade viva em mim

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Ancestralidade viva em mim

Ancestralidade

“A morte é feita do mesmo rio que a vida. Um dia a gente entra nesse rio. Um dia a gente não sai mais. Morrer é esse mergulho que a gente dá na vida e fica lá… dentro dela.”

Daniella Zupo

Sentada à beira da mata, comendo pipoca com meu filho de 9 anos, perguntei-lhe: O que tu achas que eu tenho que é parecido com a tua bisa (minha vó)? Perguntava-lhe tentando ampliar pra mim mesma o que desta ancestralidade vive em mim. Imediatamente ele me pergunta: O que tu achas que da minha vó é parecido comigo? E nesse instante pensei sobre a importância do reconhecimento da ancestralidade em nós. Características que escolhemos regar e deixamos viver para além de nós, ou aquelas que perpetuamos inconscientemente. Ancestralidade que perdura e se propaga com o vento. Conversávamos poeticamente sobre as determinações do destino, sobre o que é ancestralidade, sobre de onde vem o que vivemos hoje. Inconscientemente comemorávamos o ciclo, a morte e a vida. Averiguávamos que aquela parte de nós que morreu há um ano, em parte, em inteiras partes, segue vivendo em nós.

Aqui está: um grande exemplo de velhice, de amor a vida e aos que estão ao seu redor! Aqui está: um bom exemplo – não de perfeição, mas de humanidade. Aqui está: uma imensa saudade…. que vive em mim e que rego a cada dia as belezas que ela plantou no meu ser! Há 94 anos minha avó materna nasceu. Porém, em julho de 2018 celebramos um ano de sua morte. E agora, no céu brilham estrelas…

Qual a importância do reconhecimento da ancestralidade?

Nascida em casa, num tempo onde a vida simples tinha o seu valor e a sabedoria era algo inato. A mais velha de quatro irmãos. Criada como toda mulher deveria ser, valorizando o feminino, o gerar e o criar. Até seus últimos dias mantinha seu ritual de despertar, fazer sua higiene e imediatamente a boca e os olhos ganhavam seu colorido.

A palavra criar era vivida amplamente, e parecia ocupar o centro de sua vida. Dona de uma criatividade que transbordava, deixou de herança um legado de valor incomensurável para os que sabem apreciar. Ocupava um quartinho mágico, onde incontáveis caixas, todas etiquetadas e nomeadas, guardavam a matéria prima de suas criações. Eu criança, contemplava esse mundo encantado com imensa veneração…. e desde muito cedo aprendi sobre a importância do belo, a beleza da mistura, o poder da imaginação. Coisas estas que me influenciam profundamente, que constato como ancestralidade viva. Coisas estas que me esforço para que prossigam junto aos meus.

O que de mim eu oferto aos meus? O que dos meus, vive em mim? O que de todos eu escolho regar ou cessar?

Combinados celestes foram feitos num tempo onde habitávamos as nossas asas de anjo: Eu fiquei lá e ela desceu primeiro para preparar o caminho. Era uma relação única e de unidade. Ao re-conhecer-ser tanta beleza e alento decidi vir para esse clã terrestre. Confirmação da força e da ancestralidade. Já não é de hoje que estamos juntas. Ela chegou primeiro para abrir caminhos, dar os pontos, firmar as cordas. Uma geração nos separa para que a lapidação aconteça. O poder do feminino se espalha e se expande com a responsabilidade de nutrir e criar. Responsabilidade e o prazer pela beleza e procriação.

Matriarca incansável, soube acolher a todos no seu colo. Sabia do que cada um gostava, sabia das vontades de cada um. Ela não agradava a todos, fazia mais que isso. Cada qual no seu momento, individualmente, recebia seus mimos personalizados. Ela, do início do século XX. Eu, mulher do século XXI, vivendo mergulhada na praticidade, onde minhas comparsas queimam sutiãs em praça pública.

E por que não o arquétipo feminino, a vaidade, o provir, o cuidar…? Por que não fazer pelo outro? Gestar, criar, aninhar…? Embates, lutas internas. Lapidação das almas que seguem sempre, para além da vida ou da morte. A conquista se dá na ação, no alinhavo dos sinônimos dessas individualidades, nas mãos. No entrelaçar das mãos. Quando os dedos trabalham os pensamentos se dissolvem. Diluem-se padrões. E por que não? Um mundo feito ponto a ponto, dia após dia, se constrói. Um mundo feito à mão.
Conversa entre geração.

De geração em geração, em gerar ação, em geral são… e assim vão. Conscientes ou não. Naquele momento singular, de reconhecimento do rio da vida que habitamos e que nos habita concomitantemente, meu filho me respondeu: Como a minha bisa, tu gostas de ir a praia, toma chimarrão todos os dias e não gostas de ir no cinema. Nesse clima de pertencimento e de ancestralidade cotidiana eu lhe respondo: E como a tu vó, tu és festeiro, estás sempre pronto para dar uma voltinha, e não negas uma ida ao shopping.

Mas isto não é tudo. Sou mais que isto! Talvez isto seja, numa proporção matemática, um terço de mim. Considerando esta imagem do rio da vida, o segundo terço vem de um outro afluente e do qual também sou imensamente grata pelos tesouros que encontro a cada mergulho que dou. E o terceiro terço? Talvez seja minha capacidade de proporcionar este encontro entre distintos afluentes, de abraça-los e deixá-los fluir. Para além de mim. Perceber as turbulências e calmarias, os tesouros e os dejetos, pode ajudar a constatar a grandeza desta nascente, que vive dentro, que vive fora, que vive entre.

Estava fazendo todo este registro, após nossa conversa filosófica e poética, após acalmar a saudade que vive dentro, vem o mesmo filho e me diz: “- Mãe, lembra quando as cachorras eram pequenas que elas choravam quando a gente saía? (E esfregando uma mão na outra ele continua). Agora elas se divertem quando a gente sai.”

E assim ele me lembra da constante metamorfose da vida.


Se quiser continuar a leitura, sugerimos: Quantas versões de nós mesmos é possível encontrar?


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Lúcia Vernet

Primeira Dramaterapeuta Antroposófica brasileira, atriz, arteducadora e pedagoga antroposófica. Trabalha com formação de adultos através de processos vinculados a educação, ao teatro e as histórias de vida. Já realizou trabalhos em várias regiões do país, bem como Argentina, Chile, Peru, Bósnia & Hezergovínia, Canadá e China.

“Fatos reais ampliados por um olhar reflexivo serão apresentados para que cada leitor possa fazer um processo de reflexão interna a partir da experiência do outro, proporcionando uma comunhão entre a vivência alheia e a sua própria história de vida.”

Saiba mais sobre Lúcia

Lúcia Vernet
Lúcia Vernet
Primeira Dramaterapeuta Antroposófica brasileira, atriz, arteducadora e pedagoga antroposófica. Trabalha com formação de adultos através de processos vinculados a educação, ao teatro e as histórias de vida. Já realizou trabalhos em várias regiões do país, bem como Argentina, Chile, Peru, Bósnia & Hezergovínia, Canadá e China. “Fatos reais ampliados por um olhar reflexivo serão apresentados para que cada leitor possa fazer um processo de reflexão interna a partir da experiência do outro, proporcionando uma comunhão entre a vivência alheia e a sua própria história de vida.” Saiba mais sobre Lúcia
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