Aumentando a Potência da Vida – Parte I

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Aumentando a Potência da Vida – Parte I

Uma reflexão na perspectiva de importantes

filósofos sobre a potência da vida.

Como já visto em outro artigo que escrevemos para essa série da nCiclos (Humanizando a Atividade Física), há uma distinção entre vivência e experiência. Grosso modo, a primeira denota uma representação social para uma mesma ação realizada, como, por exemplo, assistir um filme no cinema. Todavia, a experiência é permeada pela subjetividade que cada pessoa tem sobre o filme. Em outras palavras, somos únicos mesmo que rodeados por outras pessoas.

Ao considerar essa peculiaridade, destacamos dois importantes filósofos na Modernidade que discutem sobre o sentido das experiências, Espinosa (século XVII) e Nietzsche (século XIX) – neste artigo abordaremos somente sobre as ideias de Espinosa; posteriormente falaremos sobre Nietzsche. Os autores utilizam os termos potência de vida e vontade de poder, respectivamente, com a mesma conotação. Em suas obras tem-se uma discussão a respeito da potência da vida, relacionando-a aos conceitos dos corpos e a felicidade (MOREIRA, 2011).

“Os afetos positivos, como a alegria,
o amor, potencializam a vida; enquanto
que os negativos como a tristeza,
o ódio, agiriam opostamente.”

Segundo essa autora, ambos os filósofos tecem críticas aos valores transcendentes – relacionados à metafísica, à moral do bem e do mal –, trazendo à tona a necessidade da elaboração de novos valores e uma ética afirmativa da vida, que contemple a discussão da potência. Esta é diretamente relacionada aos afetos que acometem o ser humano. Os afetos positivos, como a alegria, o amor, potencializam a vida; enquanto que os negativos como a tristeza, o ódio, agiriam opostamente.

Para Espinosa (s.d) os encontros agradáveis são experiências únicas, contribuindo para aumentar a potência da vida, isto é, potencializá-la. Essa potência é entendida como a força motriz que move, que dá razão à nossa existência. Esse filósofo em sua obra, “Ética demonstrada em ordem geométrica”, destaca o protagonismo da vida. Sendo essa, composta por experiências que podem ser compreendidas pelas paixões, afetos/sentimentos, como amor, ódio, compaixão, raiva, alegria, tristeza, que denotam uma dinamicidade à sua potência.

“as variações das paixões modificam
a potência da vida…conforme as
experiências que temos, elas alteram
a percepção que cada um tem de si e do mundo.”

Em outras palavras, as variações das paixões modificam a potência da vida, ora positivamente, como, por exemplo, por meio da alegria, aumentando-a; ora negativamente, como pela tristeza, diminuindo-a. Dito de outra maneira, conforme as experiências que temos, elas alteram a percepção que cada um tem de si e do mundo.

No entendimento de Espinosa (Ética I, Proposição, XI; Alternativa, p. 6) a potência está relacionada com o poder existir – seja em nós ou em outra coisa que exista necessariamente – e agir. Isso se refere à necessidade da existência de uma consciência/alma que nos permita identificar a nós mesmos e o outro, o exterior, promovendo uma inter-relação. Essas questões são explicadas na parte III, quando as expõe em “Definições”:

[…] III. Digo que agimos, quando algo acontece, em nós ou fora de nós, de que somos causa adequada, isto é, (pela Def. precedente) quando se segue de nossa natureza, em nós ou fora de nós, algo que se entende clara e distintamente apenas por ela. Digo ao contrário que padecemos, quando algo acontece, em nós ou fora de nós, de que somos apenas causa parcial. III. Por Afeto entendo as afecções do Corpo que aumentam ou diminuem, ajudam ou limitam, a potência de agir deste Corpo e ao mesmo tempo as idéias destas afecções. Portanto, se podemos ser causa adequada de uma destas afecções, entendo por este Afeto uma ação; caso contrário, uma paixão (ESPINOSA, s.d. p. 38).

Nessa mesma parte, o filósofo aborda sobre a interdependência entre o ser e o mundo, isto é, o influenciar e ser influenciado: “POSTULADOS – I. O corpo humano pode ser afetado de muitos modos, que aumentam ou diminuem sua potência de agir, assim como de outros que não tornam sua potência de agir nem maior nem menor” (ESPINOSA, s.d, p. 39).  Para Espinosa, também há uma reciprocidade entre o corpo e a alma quanto ao agir. Enfim, segundo a perspectiva espinosina, essa interação é que promove as paixões/experiências, que por sua vez, gera a potência da vida, que consiste na busca da felicidade.

Para terminar este texto, sem, contudo, concluí-lo, podemos fazer a seguinte pergunta:

Quais experiências têm aumentado a nossa potência da vida,
ou temos tido apenas vivências em nossas vidas?

Leia também: Humanizando a atividade física

Referências

MACIEL, M.G. A efetividade das experiências de ócio em um programa governamental de atividade física. Doutorado (tese) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. 2016.

MOREIRA, A. B. Nietzsche e Espinosa: fundamentos para uma terapêutica dos afetos. Cadernos Espinosanos.  v. XXIV, p. 141-165, 2011. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/espinosanos/article/view/89423/92280. Acessado em: 10 ago. 2014.

SPINOZA. B. Ética demonstrada em ordem geométrica e dividida em cinco partes que tratam. Tradução Roberto Brandão. Disponível em; http://www.andre.brochieri.nom.br/livros/filos/Baruch-Spinoza-Etica-Demonstrada-a-maneira-dos-Geometras-PT-BR.pdf. Acessado em: 16 nov. 2015.

Marcos Maciel
Graduado em Educação Física e doutor em Estudos do Lazer pela UFMG, atuando como docente na Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Ibirité. É Coordenador do Grupo de Estudos de Ócio e Desenvolvimento Humano.

“Os conteúdos seguirão uma abordagem reflexiva e crítica sobre as temáticas apresentadas, buscando despertar um olhar diferenciado, tendo em vista as perspectivas hegemônicas. Assim, adotamos como foco uma abordagem fenomenológica-hermenêutica, valorizando, assim, a subjetividade, sentidos e significados socioculturais para a análise do fenômeno discutido.”

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Marcos Maciel
Marcos Maciel
Graduado em Educação Física e doutor em Estudos do Lazer pela UFMG, atuando como docente na Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Ibirité. É Coordenador do Grupo de Estudos de Ócio e Desenvolvimento Humano. “Os conteúdos seguirão uma abordagem reflexiva e crítica sobre as temáticas apresentadas, buscando despertar um olhar diferenciado, tendo em vista as perspectivas hegemônicas. Assim, adotamos como foco uma abordagem fenomenológica-hermenêutica, valorizando, assim, a subjetividade, sentidos e significados socioculturais para a análise do fenômeno discutido.” Saiba mais sobre Marcos